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Casario no Bairro

 

 

 

 

 

Casario no bairro

 

 

 

Casario no Bairro

 

Casario no Bairro constitui uma evocação profundamente pessoal da paisagem urbana que marcou um período determinante da formação artística de Azymir. Inspirada nas vivências do Bairro do Aeroporto, em Maputo, durante os anos em que frequentava o atelier do mestre Malangatana, a obra, que integra  o núcleo curatorial Luz, Memória e Cidade, transcende o simples exercício de memória para se afirmar como uma reflexão sobre a cidade enquanto espaço de identidade, aprendizagem e pertença.

Longe de qualquer intenção documental, Azymir reorganiza o casario através de uma construção plástica onde a arquitectura deixa de obedecer às convenções da perspectiva para se converter numa sucessão dinâmica de planos, diagonais e volumes entrelaçados. As casas multiplicam-se, sobrepõem-se e dialogam entre si, formando um tecido urbano compacto que parece crescer organicamente sobre a superfície da tela. Cada fachada, cada telhado e cada janela deixam de ser elementos isolados para integrar uma composição onde prevalece o ritmo sobre a descrição.

A luz percorre discretamente toda a pintura, revelando a forma como o artista compreende a cidade. Os ocres luminosos, os amarelos quentes, os cinzentos e os negros estruturantes convivem numa paleta de grande equilíbrio, sugerindo a intensidade solar de Maputo sem nunca recorrer ao naturalismo. A cor não reproduz a realidade; interpreta-a, conferindo-lhe uma dimensão emocional que aproxima o espectador da experiência vivida pelo artista.

Embora seja inevitável reconhecer a importância das influências na génese deste percurso, Casario no Bairro evidencia sobretudo a afirmação de uma voz própria. Azymir assimila aquele legado sob a forma de liberdade expressiva, mas afasta-se de qualquer aproximação estilística directa para desenvolver uma linguagem em que a fragmentação do espaço, a organização geométrica dos volumes e a construção cromática se tornam elementos distintivos da sua identidade artística. A influência converte-se em herança; a herança transforma-se em criação.

A composição revela ainda uma subtil tensão entre permanência e transformação. As casas parecem simultaneamente sólidas e transitórias, como se fossem construídas pela matéria e reconstruídas pela memória. A cidade surge, assim, não como realidade estática, mas como organismo vivo, permanentemente moldado pelas experiências daqueles que a percorrem, a habitam e a recordam.

Em Casario no Bairro, Azymir demonstra que a arquitectura pode ultrapassar a sua função utilitária para se tornar linguagem poética. O bairro deixa de ser apenas um conjunto de edifícios e converte-se num repositório de afectos, de aprendizagens e de histórias partilhadas. Nesta pintura, a memória não procura conservar o passado tal como foi; recria-o, iluminando-o através da arte e confirmando que os lugares mais significativos permanecem vivos precisamente porque continuam a ser reinventados pelo olhar de quem os transporta consigo.

 

Autor: Azymir

Título: Casario no Bairro

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 52 cm (L) x 82,5 cm (A)