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Anoitecer em Mafalala

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Título: Anoitecer em Mafalala

Ano: 2025

Dimensões: 86cm (L) x 60cm (A)

Formato: Horizontal

Técnica: Óleo sobre tela

Obra única, assinada pelo Autor

Anoitecer em Mafalala”, pintura a óleo sobre tela da autoria de Azymir, inscreve-se na corrente abstracta como meditação cromática sobre o declínio da luz num dos bairros mais simbólicos de Maputo: Mafalala! Se o dia se anuncia pela expansão luminosa, aqui é a contracção que domina — uma lenta absorção da claridade pela matéria.

Azymir não representa casas, ruas ou figuras, dissolve-as. O bairro surge transfigurado em campos densos de cor, onde azuis profundos, violetas velados e negros transparentes se sobrepõem em camadas sucessivas. A superfície da tela revela zonas de espessura contrastadas com áreas quase etéreas, como se a tinta respirasse num ritmo próprio, acompanhando o cair da noite.

O horizonte não é literal, mas insinuado por linhas oblíquas e tensões subtis que organizam o espaço pictórico. Há uma gravidade silenciosa na composição: as massas cromáticas parecem descer, concentrar-se, ganhar peso. Contudo, pequenas irradiações de tons quentes — vermelhos amortecidos, laranjas em dissolução — persistem como memória do dia que resiste a desaparecer.

A abstracção, nesta obra, não é fuga ao real; é condensação. Azymir converte a experiência sensorial do entardecer — o ar que arrefece, os sons que se tornam mais nítidos, as sombras que se alongam — em linguagem plástica. Cada camada de tinta é tempo acumulado; cada transição tonal, um intervalo entre luz e escuridão.

O gesto do artista alterna entre expansão e contenção. Há pinceladas largas que sugerem vastidão atmosférica, mas também marcas mais curtas e incisivas que introduzem tensão e ritmo interno. O equilíbrio nasce desse diálogo entre o impulso e a estrutura, característica de uma abstracção amadurecida.

Anoitecer em Mafalala” convida à contemplação demorada. A obra não impõe narrativa, propõe, outrossim, estado de espírito. A tela torna-se espaço de recolhimento onde o espectador é chamado a habitar a penumbra e a reconhecer nela uma forma de beleza.

Nesta pintura, Azymir demonstra que o escuro não é ausência, mas densidade. O bairro, transformado em vibração cromática, permanece vivo — não pela descrição, mas pela energia silenciosa que persiste quando a luz se retira.

O artista

Azymir, voz serena e luminosa da pintura moçambicana contemporânea, é um daqueles raros artistas plásticos cuja obra não se impõe pela extravagância, mas sim pela força tranquila de quem observa o mundo com atenção e o devolve na forma de poesia visual. Nascido na tribo Ronga em 1962 no Sul do Moçambique colonial, Azimir Chiluquete — que adoptou o nome artístico Azymir — desde cedo revelou a sua paixão pela pintura, e, enquanto discípulo do saudoso mestre Malangatana, construiu um percurso artístico sólido e profundamente singular, que, sem sombra de dúvidas, o remete para o plano dos criadores moçambicanos mais reconhecidos e respeitados de sempre.

Mestre nas técnicas de óleo e acrílico sobre tela, Azymir não procura apenas pintar: procura interpretar. O seu traço é contido mas seguro, sempre guiado por uma sensibilidade que ultrapassa a mera representação literal. Cada pintura é uma história contada em silêncio — um silêncio denso, cheio de significado, quase sempre ancorado na essência da vida da sociedade moçambicana.

Artista que vê para lá do visível, o olhar de Azymir capta nuances que muitos deixariam escapar. Interessam-lhe os pequenos rituais do quotidiano, como o trabalho na machamba, uma conversa interrompida pelo pôr do sol, o descanso depois da partilha, a cumplicidade familiar, os vínculos invisíveis que sustentam comunidades inteiras. São instantes aparentemente simples, mas que, nas suas mãos, ganham profundidade simbólica. Azymir parece recordar-nos que a verdadeira grandeza da vida reside nos gestos humildes, nos vínculos silenciosos, na dignidade que preenche os dias comuns.

Senhor de uma técnica, sensibilidade e harmonia raras, a execução pictórica de Azymir revela um domínio notável dos materiais e uma maturidade compositiva invulgar. O seu traço é disciplinado, firme, e conduz a narrativa visual com precisão, ao mesmo tempo que abre espaço para a emoção respirar. Nada nas suas obras é redundante. As figuras têm peso, presença e interioridade. O ambiente parece sempre pulsar uma energia discreta, quase espiritual. As composições são equilibradas, meditativas, construídas para que o espectador permaneça — para que observe com calma, como se estivesse perante um diálogo íntimo entre a tela e o tempo.

O mérito maior de Azymir é a sua capacidade de colocar a pessoa no centro da obra. Não idealiza, não romantiza, não dramatiza. Apenas revela — e essa revelação tem uma força particular. Nas suas telas há respeito, empatia e verdade. Há a consciência da luta, mas também da esperança. Há o peso do passado, mas também a leveza de um futuro possível. Há a memória do país e a visão de um artista que se sabe parte dele.

O percurso de Azymir — legado vivo já marcado pela maturidade — está em permanente evolução, demonstrando a sua obra a solidez de quem encontrou o seu caminho. Cada nova obra acrescenta mais uma camada a este universo estético coerente e profundamente humano, e é esta consistência — aliada à delicadeza do olhar e à honestidade do estilo — aquilo que faz de Azymir uma referência notável na pintura contemporânea.

Azymir é, acima de tudo, um artista que nos ensina a olhar, a perceber o que existe para lá da superfície, e a encontrar beleza na profundidade, significado e verdade onde, as mais das vezes, ninguém pensa procurar.

As suas obras não são meramente para ver, são, essencialmente, para sentir...

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