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Espanto

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Nesta obra, Azymir capta o instante em que o inesperado interrompe a ordem do quotidiano e transforma um gesto colectivo numa experiência de assombro. A causa permanece invisível; apenas a reacção se oferece ao olhar. Rostos, gestos e silêncios convergem numa mesma emoção, fazendo do espanto uma linguagem universal que atravessa o tempo e as culturas.

Integrada no núcleo Pecadilhos da Sociedade, esta pintura revela como um acontecimento inesperado pode alterar, ainda que por breves instantes, a dinâmica da vida em comunidade. Entre a curiosidade, a surpresa e a incerteza, Azymir convida o observador a completar a narrativa, recordando que é muitas vezes no indizível que a arte encontra a sua maior força expressiva.

Autor: Azyimir

Título: Espanto

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 74 cm (L) x 98 cm (A)

 

  

 

 

 

 

 

 

Espanto

 

Em Espanto, óleo sobre tela da autoria do mestre Azymir, instante torna-se eternidade. Esta obra,  incluída no núcleo curatorial Pecadilhos da Sociedade, fixa no tempo aquele segundo raro em que a normalidade se rompe e o inesperado irrompe como um clarão no coração da vida quotidiana. Não se sabe exactamente o que aconteceu — e talvez seja precisamente por isso que o assombro se torna tão absoluto. A sociedade suspende a respiração, como se o mundo tivesse sido surpreendido em pleno movimento.

O que Azymir nos oferece não é apenas a imagem de um acontecimento, mas o retrato colectivo de uma emoção. O espanto espalha-se de rosto em rosto, de gesto em gesto, como uma onda silenciosa que atravessa o espaço e os corpos. Há rostos boquiabertos, olhos escancarados, mãos que se elevam num reflexo instintivo, acções interrompidas a meio. Tudo se detém, tudo escuta, tudo vê. A obra revela esse instante frágil em que do enigma, emerge a admiração, o assombro e o temor, que se confundem numa mesma vibração.

As sociedades humanas, habitualmente território da rotina, do conhecido e do previsível, transformam-se num palco de espanto. Aquilo que é pequeno torna-se imenso. Aquilo que é seguro torna-se enigma. O acontecimento inesperado — nunca nomeado, nunca explicado — ganha assim uma força ainda maior, porque não se fecha num significado único: é mistério aberto, eco prolongado, pergunta que permanece no ar muito depois de o olhar abandonar a tela.

Azymir domina com maestria esta tensão entre o visível e o invisível. O que se mostra é a reacção; o que se oculta é a causa. E é nessa distância que nasce a poesia da obra. O acontecimento pode ter sido um prodígio, uma ameaça, uma revelação, um erro irreversível ou uma bênção improvável. Cada observador projecta para dentro da pintura o seu próprio espanto, completando, sem o saber, aquilo que o artista, deliberadamente, deixou em suspenso.

Espanto fala-nos, no fundo, da quintessência da condição humana diante do inesperado. Da forma como a vida, por vezes, nos surpreende sem aviso, rasgando o tecido da normalidade e obrigando-nos a reaprender a olhar. A sociedade em que Azymir se integra é a imagem de todas as sociedades. O seu espanto é o nosso. Porque também nós, no meio das nossas rotinas, somos por vezes chamados a parar — surpreendidos por algo que não pedimos, não previmos, mas que nos transforma.

No silêncio denso que a pintura sugere, percebe-se que nada voltará a ser exactamente como antes. O espanto não é apenas reacção: é também semente de mudança. E é essa subtil promessa de transformação que torna esta obra tão poderosa — porque nos lembra que, mesmo nos momentos mais tranquilos e previsíveis, o extraordinário pode surgir a qualquer instante.

  

Autor: Azyimir

Título: Espanto

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 74 cm (L) x 98 cm (A)

 

  

Azymir

 

 

O artista


A pintura de Azymir afirma-se pela capacidade rara de conciliar a observação da realidade com uma linguagem profundamente poética, transformando o quotidiano em metáfora e a experiência humana em narrativa visual. O seu trabalho não procura reproduzir fielmente o mundo visível; procura interpretá-lo, revelando aquilo que se encontra para além da aparência imediata das coisas.

A sua obra desenvolve-se em torno de dois grandes universos complementares. Num deles, o artista mergulha na vitalidade da cidade, dos mercados, das ruas, dos encontros e dos gestos que definem a vida colectiva. No outro, conduz-nos a um espaço de introspecção, em que a figura humana, particularmente a figura feminina, se torna veículo de memória, de sonho, de espera e de contemplação. Em ambos os casos, a realidade constitui apenas o ponto de partida para uma construção plástica dominada pela emoção, pelo ritmo compositivo e pelo poder evocativo da cor.

Azymir inscreve-se, assim, numa linguagem figurativa de forte matriz expressionista. As suas figuras afastam-se deliberadamente do rigor naturalista, assumindo proporções, movimentos e simplificações formais que intensificam a carga expressiva da composição. A deformação nunca é gratuita; é um recurso plástico destinado a comunicar estados de espírito, atmosferas e relações humanas que dificilmente poderiam ser transmitidos através de uma representação estritamente objectiva.

Nas obras de temática urbana, essa linguagem aproxima-se de um expressionismo narrativo, em que a cidade é apresentada não apenas como espaço físico, mas como palco das relações humanas, das tensões sociais, da convivência e da esperança. A composição organiza-se segundo ritmos visuais que conferem dinamismo às cenas, enquanto a cor participa activamente na construção da emoção, transcendendo a mera descrição do real.

Por sua vez, nas obras de carácter mais intimista, Azymir aproxima-se de um figurativismo simbolista de afinidades pós-impressionistas, em que o significado ultrapassa a narrativa imediata. Figuras como as de Sonhando Acordada, Esperando o Amor, Dança das Ninfas ou Matrona Espojada deixam de representar indivíduos concretos para assumirem uma dimensão quase arquetípica. A mulher surge como símbolo da interioridade, da memória, da fertilidade, da serenidade e da condição humana, enquanto o espaço pictórico se transforma num território psicológico, onde a cor, a forma e a composição evocam estados emocionais mais do que lugares ou acontecimentos.

É possível reconhecer, neste núcleo da sua produção, afinidades com alguns princípios do Pós-Impressionismo, particularmente na autonomia expressiva da cor, na simplificação das formas e na construção de atmosferas simbólicas que recordam certas soluções exploradas por Paul Gauguin. Contudo, essas aproximações pertencem ao domínio da linguagem artística e não da influência directa. Azymir desenvolve um discurso profundamente enraizado na experiência cultural moçambicana, construído a partir de uma visão interior da sua própria realidade e não da observação de um universo exterior ou exótico.

Esta capacidade de dialogar com grandes tradições da pintura moderna, preservando simultaneamente uma identidade estética própria, confere à sua obra uma dimensão universal. Sem abdicar das referências culturais que a alimentam, a pintura de Azymir aborda temas que atravessam fronteiras geográficas: o amor, a esperança, a maternidade, a memória, a cidade, o trabalho, o sonho e a permanente procura de sentido na experiência humana.

Na BATIKart, a obra de Azymir integra-se plenamente na missão de apresentar artistas cuja linguagem ultrapassa qualquer enquadramento geográfico ou etnográfico. A sua pintura demonstra que a arte contemporânea produzida em Moçambique participa, com plena legitimidade, nas grandes correntes do pensamento visual contemporâneo, afirmando uma voz singular que transforma a realidade em emoção e a emoção em linguagem pictórica.

 

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