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Rumores

Título: Rumores

Ano: 2025

Dimensões: 91cm (L) x 63cm (A)

Técnica: Óleo sobre tela texturizada com colagem de reticulado de algodão

Rumores”, pintura a óleo sobre tela texturizada com reticulado de algodão, afirma-se como uma das obras mais eloquentes de Azymir no diálogo assumido com o seu mestre, o grande Malangatana Valente Ngwenya, de quem foi discípulo atento e espiritualmente comprometido.

Desde o primeiro olhar, percebe-se que não estamos perante uma simples evocação estilística, mas diante de uma assimilação profunda. A superfície da tela — densamente trabalhada com reticulado de algodão — cria um campo vibratório onde a matéria ganha protagonismo. A textura não é acessório técnico: é pele, é território sensível onde a narrativa se inscreve. O entrelaçado do algodão sugere redes invisíveis: laços sociais, cumplicidades, rumores consubstanciados em segredos que circulam de boca em boca.

A composição é povoada por figuras interdependentes, quase entrelaçadas, cujos contornos negros e expressivos denunciam claramente a herança recebida do grande Malangatana. Rostos multiplicam-se, olhos arregalam-se, bocas insinuam palavras que não se ouvem, mas que se pressentem. Há uma tensão dramática que percorre o conjunto — um tumulto silencioso que vibra na paleta intensa de vermelhos, amarelos ácidos e negros profundos.

Tal como no universo do mestre, a narrativa é coral. Contudo, Azymir introduz uma nuance própria: o drama colectivo não explode; infiltra-se. Em “Rumores”, o conflito é subterrâneo. As figuras parecem presas numa teia emocional, em que cada gesto se repercute no outro. O rumor — esse fenómeno social difuso e corrosivo — é aqui visualizado como organismo vivo, quase tentacular.

A pincelada é firme, por vezes abrupta, mas revela já uma maturidade que se afasta da mera imitação. Se em Malangatana muitas vezes o imaginário se expande para o épico e para o mítico, em Azymir a intensidade concentra-se no microcosmo social, na inquietação quotidiana. O reticulado da tela reforça essa leitura: cada quadrícula torna-se célula de uma comunidade em permanente vigilância.

Rumores” é, assim, uma obra sobre a palavra — sobre o seu poder de construir e destruir, de unir e fragmentar. É também um tributo respeitoso a um mestre incontornável, mas sobretudo a afirmação de um discípulo que soube transformar influência em linguagem própria.

Nesta pintura, Azymir demonstra que herdar não é repetir: é dialogar, tensionar e reinventar. E é nesse espaço de tensão criativa que “Rumores” encontra a força da sua identidade.

O artista

Azymir, voz serena e luminosa da pintura moçambicana contemporânea, é um daqueles raros artistas plásticos cuja obra não se impõe pela extravagância, mas sim pela força tranquila de quem observa o mundo com atenção e o devolve na forma de poesia visual. Nascido na tribo Ronga em 1962 no Sul do Moçambique colonial, Azimir Chiluquete — que adoptou o nome artístico Azymir — desde cedo revelou a sua paixão pela pintura, e, enquanto discípulo do saudoso mestre Malangatana, construiu um percurso artístico sólido e profundamente singular, que, sem sombra de dúvidas, o remete para o plano dos criadores moçambicanos mais reconhecidos e respeitados de sempre.

Mestre nas técnicas de óleo e acrílico sobre tela, Azymir não procura apenas pintar: procura interpretar. O seu traço é contido mas seguro, sempre guiado por uma sensibilidade que ultrapassa a mera representação literal. Cada quadro é uma história contada em silêncio — um silêncio denso, cheio de significado, quase sempre ancorado na essência da vida da sociedade moçambicana.

Artista que vê para lá do visível, o olhar de Azymir capta nuances que muitos deixariam escapar. Interessam-lhe os pequenos rituais do quotidiano, como o trabalho na machamba, uma conversa interrompida pelo pôr do sol, o descanso depois da partilha, a cumplicidade familiar, os vínculos invisíveis que sustentam comunidades inteiras. São instantes aparentemente simples, mas que, nas suas mãos, ganham profundidade simbólica. Azymir parece recordar-nos que a verdadeira grandeza da vida reside nos gestos humildes, nos vínculos silenciosos, na dignidade que preenche os dias comuns.

Senhor de uma técnica, sensibilidade e harmonia raras, a execução pictórica de Azymir revela um domínio notável dos materiais e uma maturidade compositiva invulgar. O seu traço é disciplinado, firme, e conduz a narrativa visual com precisão, ao mesmo tempo que abre espaço para a emoção respirar. Nada nas suas telas é redundante. As figuras têm peso, presença e interioridade. O ambiente parece sempre pulsar uma energia discreta, quase espiritual. As composições são equilibradas, meditativas, construídas para que o espectador permaneça — para que observe com calma, como se estivesse perante um diálogo íntimo entre a tela e o tempo.

O mérito maior de Azymir é a sua capacidade de colocar a pessoa no centro da obra. Não idealiza, não romantiza, não dramatiza. Apenas revela — e essa revelação tem uma força particular. Nas suas telas há respeito, empatia e verdade. Há a consciência da luta, mas também da esperança. Há o peso do passado, mas também a leveza de um futuro possível. Há a memória do país e a visão de um artista que se sabe parte dele.

O percurso de Azymir — legado vivo já marcado pela maturidade — está em permanente evolução, demonstrando a sua obra a solidez de quem encontrou o seu caminho. Cada nova obra acrescenta mais uma camada a este universo estético coerente e profundamente humano, e é esta consistência — aliada à delicadeza do olhar e à honestidade do estilo — aquilo que faz de Azymir uma referência notável na pintura contemporânea moçambicana.

Azymir é, acima de tudo, um artista que nos ensina a olhar, a perceber o que existe para lá da superfície, e a encontrar beleza na profundidade, significado e verdade onde, as mais das vezes, ninguém pensa procurar.

As suas obras não são meramente para ver, são, essencialmente, para sentir...

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