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Pinceladas, em Concreto

 

 

 

 

 

 

 

Pinceladas, em Concreto

 

Pinceladas, em Concreto constitui uma das obras mais conceptualmente estimulantes de Azymir, revelando que, na sua pintura, o gesto criativo pode começar antes mesmo da primeira pincelada. O título nasce de um episódio aparentemente trivial: perante a pergunta «O que estás concretamente a pintar?», o artista responde, sem interromper o trabalho: «Estou a fazer umas pinceladas, em concreto.» A frase, simultaneamente espontânea e inesperada, encerra uma dupla leitura. Por um lado, afirma o carácter imediato da resposta; por outro, sugere a possibilidade de essas mesmas pinceladas se inscreverem sobre o próprio betão - "concreto", em Moçambique - transformando o concreto  em matéria pictórica e em metáfora da cidade.

Esta ambiguidade semântica prolonga-se na própria composição. A superfície da tela organiza-se como um território de tensões entre matéria, ritmo e estrutura, onde o gesto deixa de ser mero instrumento de representação para assumir autonomia plástica. As pinceladas afirmam-se como entidades visuais independentes, construindo um espaço em que a pintura reflecte sobre si própria e sobre os seus próprios meios de expressão.

Embora a obra possa ser apreciada como um exercício de liberdade formal, nela permanece uma profunda relação com o universo urbano que atravessa este núcleo curatorial. As sucessivas camadas de tinta, as sobreposições cromáticas e os planos fragmentados evocam superfícies marcadas pelo tempo, muros que acumulam histórias, paredes que conservam vestígios de sucessivas intervenções humanas. A cidade não surge representada; manifesta-se como memória material inscrita na própria pele da pintura.

Azymir demonstra um domínio invulgar da matéria pictórica. O óleo adquire densidade física, revelando uma superfície onde transparências, acumulações e zonas de maior espessura estabelecem um diálogo permanente entre espontaneidade e controlo. Nada parece gratuito: mesmo o gesto mais livre integra uma arquitectura visual cuidadosamente equilibrada, em que cada tensão cromática encontra o seu contraponto e cada vazio participa activamente na construção do conjunto.

O verdadeiro protagonista da obra é, contudo, o próprio acto de pintar. Azymir convida o observador a deslocar a atenção daquilo que é representado para a forma como a pintura acontece. A imagem deixa de funcionar como janela para um mundo exterior e transforma-se em testemunho do processo criativo, em que cada pincelada conserva a energia do instante em que foi executada. A obra fala menos do objecto do que da acção; menos da aparência do que da presença.

Em Pinceladas, em Concreto, o artista demonstra que a criação pode nascer da mais simples das respostas e transformar-se numa reflexão sofisticada sobre a natureza da pintura. Entre o jogo de palavras e a profundidade conceptual, Azymir constrói uma obra que celebra simultaneamente a liberdade do gesto, a inteligência do olhar e a capacidade da arte para encontrar significado precisamente naquilo que, à primeira vista, parece apenas uma resposta improvisada. É nesse encontro entre linguagem, matéria e criação que reside a singularidade desta pintura: um momento em que o concreto deixa de ser apenas substância e se transforma em pensamento visual.

 

Autor: Azymir

Título: Pinceladas, em Concreto

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 70 cm (L) x 77 cm (A)