Pinceladas, em concreto
Título: Pinceladas em concreto
Ano: 2025
Dimensões: 70cm (L) x 78cm (A)
Técnica: Óleo sobre tela
“Pinceladas, em concreto”, pintura a óleo sobre tela da autoria de Azymir, marca um momento de depuração e coragem estética no seu percurso artístico, ao inscrever-se decididamente na corrente abstracta. Aqui, o artista abdica da figura, da narrativa explícita e da ancoragem simbólica reconhecível para se concentrar na essência do acto pictórico: a matéria, o gesto, a cor.
Este título emerge da circunstância de alguém que, vendo-o pintar em estilo abstracto, lhe perguntou: "O que estás concretamente a pintar?", ao que Azymir retorquiu: "Estou a pintar, em abstracto, umas pinceladas, em concreto”! Desta resposta espontânea emerge o título da obra, em que "Pinceladas" remete para o movimento, para o instante da criação, e “em concreto” sugere uma relação com a densidade e presença física da abstracção entretanto pintada. A obra afirma-se como campo de tensão entre o impulso e a construção. Cada gesto não é improviso descontrolado, mas afirmação consciente de energia contida.
A superfície da tela revela camadas espessas de tinta, aplicadas com vigor e decisão. Há zonas onde a matéria parece quase emergir em relevo, criando uma topografia pictórica que convida o olhar a percorrer vales cromáticos e elevações de pigmento. O óleo deixa de ser mero veículo de representação e torna-se substância autónoma, protagonista da composição.
A paleta, embora aparentemente livre, revela uma lógica interna rigorosa. Tons contrastantes — por vezes quentes e saturados, outras vezes densos e sombrios — organizam-se em blocos, sobreposições e rasgos que sugerem arquitectura interior. Não há centro narrativo; há um equilíbrio dinâmico, um diálogo permanente entre expansão e contenção.
Nesta obra, Azymir aproxima-se da tradição abstracta que privilegia o gesto como linguagem autónoma. Contudo, não se trata de um exercício formal frio ou intelectualizado. “Pinceladas, em concreto” conserva uma carga emocional intensa, ainda que não figurativa. A emoção manifesta-se na energia do traço, na fricção entre cores, na tensão entre planos.
O espectador é convocado a abandonar a expectativa de reconhecimento imediato e a entregar-se à experiência sensorial. A obra não conta uma história — provoca uma sensação. É um espaço onde o visível se torna vibração, onde o silêncio da forma ecoa com força.
Com esta pintura, Azymir demonstra maturidade e versatilidade: a capacidade de transitar da expressividade figurativa para a abstracção sem perder identidade. “Pinceladas, em concreto” é, acima de tudo, afirmação de liberdade — a liberdade do gesto que se torna presença, do pigmento que se torna corpo, da pintura que se basta a si própria.

O artista
Azymir, voz serena e luminosa da pintura moçambicana contemporânea, é um daqueles raros artistas plásticos cuja obra não se impõe pela extravagância, mas sim pela força tranquila de quem observa o mundo com atenção e o devolve na forma de poesia visual. Nascido na tribo Ronga em 1962 no Sul do Moçambique colonial, Azimir Chiluquete — que adoptou o nome artístico Azymir — desde cedo revelou a sua paixão pela pintura, e, enquanto discípulo do saudoso mestre Malangatana, construiu um percurso artístico sólido e profundamente singular, que, sem sombra de dúvidas, o remete para o plano dos criadores moçambicanos mais reconhecidos e respeitados de sempre.
Mestre nas técnicas de óleo e acrílico sobre tela, Azymir não procura apenas pintar: procura interpretar. O seu traço é contido mas seguro, sempre guiado por uma sensibilidade que ultrapassa a mera representação literal. Cada quadro é uma história contada em silêncio — um silêncio denso, cheio de significado, quase sempre ancorado na essência da vida da sociedade moçambicana.
Artista que vê para lá do visível, o olhar de Azymir capta nuances que muitos deixariam escapar. Interessam-lhe os pequenos rituais do quotidiano, como o trabalho na machamba, uma conversa interrompida pelo pôr do sol, o descanso depois da partilha, a cumplicidade familiar, os vínculos invisíveis que sustentam comunidades inteiras. São instantes aparentemente simples, mas que, nas suas mãos, ganham profundidade simbólica. Azymir parece recordar-nos que a verdadeira grandeza da vida reside nos gestos humildes, nos vínculos silenciosos, na dignidade que preenche os dias comuns.
Senhor de uma técnica, sensibilidade e harmonia raras, a execução pictórica de Azymir revela um domínio notável dos materiais e uma maturidade compositiva invulgar. O seu traço é disciplinado, firme, e conduz a narrativa visual com precisão, ao mesmo tempo que abre espaço para a emoção respirar. Nada nas suas telas é redundante. As figuras têm peso, presença e interioridade. O ambiente parece sempre pulsar uma energia discreta, quase espiritual. As composições são equilibradas, meditativas, construídas para que o espectador permaneça — para que observe com calma, como se estivesse perante um diálogo íntimo entre a tela e o tempo.
O mérito maior de Azymir é a sua capacidade de colocar a pessoa no centro da obra. Não idealiza, não romantiza, não dramatiza. Apenas revela — e essa revelação tem uma força particular. Nas suas telas há respeito, empatia e verdade. Há a consciência da luta, mas também da esperança. Há o peso do passado, mas também a leveza de um futuro possível. Há a memória do país e a visão de um artista que se sabe parte dele.
O percurso de Azymir — legado vivo já marcado pela maturidade — está em permanente evolução, demonstrando a sua obra a solidez de quem encontrou o seu caminho. Cada nova obra acrescenta mais uma camada a este universo estético coerente e profundamente humano, e é esta consistência — aliada à delicadeza do olhar e à honestidade do estilo — aquilo que faz de Azymir uma referência notável na pintura contemporânea moçambicana.
Azymir é, acima de tudo, um artista que nos ensina a olhar, a perceber o que existe para lá da superfície, e a encontrar beleza na profundidade, significado e verdade onde, as mais das vezes, ninguém pensa procurar.
As suas obras não são meramente para ver, são, essencialmente, para sentir...
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