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Verão Azul na Cidade

Desconstruindo a Cidade

 

  

 

 

 

Verão Azul na Cidade

 

  

 

Verão Azul na Cidade

  

Verão Azul na Cidade, de Malendze, nasce de uma pergunta que é, ao mesmo tempo, uma questão de ser ou não ser: será que se trata de um Verão que, em tons de azul, se abate sobre a cidade como uma atmosfera surreal? Ou será que é, outrossim, o olhar de quem a contempla que a transforma, tingindo-a de azul? Nesta ambiguidade se funda a essência da obra. É que o título não explica — insinua. E não encerra um sentido — abre dois caminhos que se entrecruzam em distintos planos, nunca se fundindo por completo.

Há, numa primeira perspectiva, a ideia de um Verão azul que desce sobre a cidade como uma maré invisível. Um Verão que não é apenas estação, mas um estado de espírito. O azul envolve os edifícios, repousa sobre os telhados, infiltra-se nas ruas como um silêncio luminoso. É o azul da vastidão do céu que pesa sobre as paredes quentes, o azul da distância que arrefece o excesso de sol, o azul que suaviza o calor ardente de uma cidade viva. Cidade na qual o Verão não é apenas calor: é suspensão, é dilatação do tempo, é uma languidez que tudo envolve numa mesma brisa cromática.

Mas há também a outra possibilidade, igualmente surpreendente: será que é mesmo a cidade que está azul? Ou seremos nós que a vemos azul? O azul passa então a ser filtro do olhar, tradução íntima de um sentimento projectado sobre o mundo. Sob este prisma, a cidade torna-se tela da nossa própria melancolia, da nossa serenidade, da nossa nostalgia ou do nosso desejo de infinitude. O azul deixa de ser a cor do céu para se tornar a cor da consciência. A pintura deixa de representar um lugar que conhecemos, para revelar um estado interior a descobrir.

Malendze constrói esta dualidade com subtileza: a obra oscila entre o real e o sensorial, entre o que se impõe aos olhos e aquilo que dentro deles nasce. A cidade é simultaneamente corpo e reflexo, matéria e emoção. Nada é totalmente externo, nada é apenas interno. Tudo vibra nessa zona intermédia onde o mundo e o sujeito se confundem.

Verão Azul na Cidade é, assim, uma pintura sobre a instabilidade do sentido, sobre a fragilidade das certezas absolutas. Aquilo que vemos é sempre atravessado por aquilo que somos. O azul tanto pode ser céu como pode ser alma. A cidade tanto pode estar sob o domínio de um Verão cromático como sob a influência silenciosa de um olhar que a reinventa.

Em última instância, Malendze não escolhe entre as duas hipóteses — oferece-as ambas. E é nesse gesto que a obra se torna profundamente poética, lembrando-nos que a realidade não é apenas aquilo que nos acontece, mas também aquilo que projectamos. A cidade existe, sim, mas existe também a versão da cidade que cada um guarda dentro de si.

E, por vezes, essa versão é azul...

 

Autor: Malendze

Título: Verão Azul na Cidade

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 100 cm (L) x 66 cm (A)