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Verão azul na cidade

Título: Verão azul na cidade

Ano: 2025

Dimensões: 100cm (L) x 66cm (A)

Formato: Horizontal

Técnica: Óleo sobre tela

 

 

Verão azul na cidade”, de Malendze, nasce de uma pergunta que é, ao mesmo tempo, uma questão de ser ou não ser: será que se trata de um Verão que, em tons de azul, se abate sobre a cidade como uma atmosfera surreal? Ou será que é, outrossim, o olhar de quem a contempla que a transforma, tingido-a de azul? Nesta ambiguidade se funda a essência da obra. É que o título não explica — insinua. E não encerra um sentido — abre dois caminhos que se cruzam em distintos planos, nunca se fundindo por completo.

Há, numa primeira perspectiva, a ideia de um Verão azul que desce sobre a cidade como uma maré invisível. Um Verão que não é apenas estação, mas um estado de espírito. O azul envolve os edifícios, repousa sobre os telhados, infiltra-se nas ruas como um silêncio luminoso. É o azul da vastidão do céu que pesa sobre as paredes quentes, o azul da distância que arrefece o excesso de sol, o azul que suaviza o calor ardente de uma cidade viva. Cidade na qual o Verão não é apenas calor: é suspensão, é dilatação do tempo, é uma languidez que tudo envolve numa mesma brisa cromática.

Mas há também a outra possibilidade, igualmente surpreendente: será que é mesmo a cidade que está azul? Ou seremos nós que a vemos azul? O azul passa então a ser filtro do olhar, tradução íntima de um sentimento projectado sobre o mundo. A cidade, sob este prisma, torna-se tela da nossa própria melancolia, da nossa serenidade, da nossa nostalgia ou do nosso desejo de infinitude. O azul deixa de ser a cor do céu para se tornar a cor da consciência. A pintura deixa de representar um lugar que conhecemos, para revelar um estado interior a descobrir.

Malendze constrói esta dualidade com subtileza: a obra oscila entre o real e o sensorial, entre o que se impõe aos olhos e o que nasce dentro deles. A cidade é simultaneamente corpo e reflexo, matéria e emoção. Nada é totalmente externo, nada é apenas interno. Tudo vibra nessa zona intermédia onde o mundo e o sujeito se confundem.

Verão azul na cidade” é, assim, uma pintura sobre a instabilidade do sentido, sobre a fragilidade das certezas absolutas. Aquilo que vemos é sempre atravessado por aquilo que somos. O azul tanto pode ser céu como pode ser alma. A cidade tanto pode estar sob o domínio de um Verão cromático como sob a influência silenciosa de um olhar que a reinventa.

Em última instância, Malendze não escolhe entre as duas hipóteses — oferece-as ambas. E é nesse gesto que a obra se torna profundamente poética, lembrando-nos que a realidade não é apenas aquilo que nos acontece, mas também aquilo que projectamos. A cidade existe, sim, mas existe também a versão da cidade que cada um guarda dentro de si.

E, por vezes, essa versão é azul...

 O artista

O artista plástico moçambicano Alberto Malendze, conhecido no meio das artes plásticas simplesmente como Malendze, é um daqueles criadores raros cuja obra parece nascer directamente do sopro invisível que percorre Moçambique — do rumor sibilante das frondosas casuarinas, do murmúrio das urbes, do silêncio sagrado das tradições. As suas telas, trabalhadas em óleo e acrílico, são muito mais do que meras superfícies pintadas: são espaços onde a cor respira, onde a luz se demora, onde a alma encontra eco.

Em Malendze, cada tonalidade vibra com a intensidade de um poema. Os seus dégradés profundos, ora quentes como o entardecer em Inhambane, ora serenos como um amanhecer sobre o Índico, compõem uma linguagem sensorial única. A cor transforma-se em narrativa, em memória, em presença — como se a tela guardasse dentro de si o som distante de vozes, de passos, de histórias que resistem ao tempo.

O traço de Malendze é intuitivo, mas nunca desordenado. Há nele uma musicalidade íntimista, um ritmo que nos conduz para dentro das formas e das figuras, como se estivéssemos a seguir o pulsar de um coração antigo.

As figuras humanas — frequentemente centrais no seu universo — surgem como aparições luminosas: não representam apenas pessoas, mas estados de espírito, fragmentos de identidade, sombras de um povo que se reconhece na sua própria poesia visual. São corpos que carregam o peso suave da tradição, mas que se movem com a liberdade de quem habita o espaço contemporâneo universal.

Há um silêncio particular na obra de Malendze — um silêncio fértil, cheio de ressonâncias. É o silêncio das povoações ao anoitecer, das conversas murmuradas, da ancestralidade que nunca se diz por completo. Esse silêncio é o espaço onde a imaginação do observador se instala, onde cada tela se transforma num diálogo íntimo entre o artista e quem a contempla.

As obras de Malendze não procuram deslumbrar apenas pela técnica, embora esta seja notável. Procuram, outrossim, tocar, evocar, comover. Cada pincelada parece oferecer uma passagem para outro lugar — não geográfico, mas interior. E quem se detém diante de uma obra do artista encontra quase sempre uma espécie de reconhecimento: como se aquilo que se vê tivesse sido, de alguma forma, sempre nosso.

No panorama artístico moçambicano, Malendze destaca-se como um verdadeiro poeta universal, um mestre da cor e da forma. As suas telas são cânticos silenciosos, celebrações do que somos e do que desejamos ser, pequenos milagres de luz e de sensibilidade criados para perdurar.

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