39000 pés sobre África
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Título: 39000 pés sobre África
Ano: 2025
Dimensões: 86cm (L) x 65cm (A)
Formato: Horizontal
Técnica: Acrílico sobre tela
“39000 pés sobre África”, de Malendze, é uma obra de forte densidade simbólica que se impõe tanto pelo impacto visual como pela ambiguidade provocatória do seu título. Executada com a intensidade expressiva que caracteriza o seu autor, esta pintura convida o observador a elevar-se — ou a distanciar-se — para melhor compreender o seu significado.
A referência a 39000 pés remete, numa primeira leitura, para a altitude de cruzeiro de um avião comercial. Voar a 39000 pés sobre África sugere uma visão panorâmica, distante, quase abstracta do continente: a terra transforma-se em manchas de cor, em traçados irregulares, em padrões que lembram mapas ou cicatrizes. Do alto, as fronteiras parecem irrelevantes; as diferenças diluem-se; tudo se torna superfície. Esta leitura aponta para a ideia de contemplação — um olhar suspenso, silencioso, talvez admirado.
Mas Malendze raramente se fica pela superfície.
O título pode também encerrar uma crítica mais aguda. Voar “sobre” África pode significar sobrevoar os seus dramas, observar sem tocar, usufruir sem pertencer. Desde há séculos que o continente africano desperta a atenção de potências estrangeiras que, bem mais baixo do que do que 39000 pés, por lá têm posto muitos mais pés, movidos por interesses muitas vezes inconfessáveis. Este contexto pode simbolizar a distância fria e calculista de quem olha para baixo não para compreender ou por viajar, fazendo-o, outrossim, para identificar oportunidades de ganho emergente da exploração do continente.
A própria composição da obra reforça essa tensão. As formas fragmentadas, os contrastes intensos e as áreas de cor densamente trabalhadas sugerem simultaneamente beleza e conflito. Há zonas luminosas que evocam esperança e riqueza natural; há outras mais sombrias, que parecem denunciar feridas abertas. A pintura oscila entre contemplação e denúncia, entre altitude e realidade.
“39000 pés sobre África” é, pois, uma metáfora visual poderosa. Questiona quem observa e a partir de onde observa. Convida-nos a reflectir sobre a posição do olhar: estamos, do alto, a admirar o continente na sua vastidão e grandeza, ou a reduzi-lo a mero território de interesse? Estamos a voar por estarmos a viajar, ou a sobrevoar com cupidez que se revela como indiferença?
Com esta obra, Malendze demonstra uma vez mais a sua capacidade de transformar um título sugestivo numa plataforma de reflexão política e ética. A altitude torna-se consciência; o voo, responsabilidade. E a arte, nesse espaço suspenso entre o céu e a terra, assume o papel de questionar múltiplas narrativas que há muito pairam — literalmente — sobre África.

O artista
O artista plástico moçambicano Alberto Malendze, conhecido no meio das artes plásticas simplesmente como Malendze, é um daqueles criadores raros cuja obra parece nascer directamente do sopro invisível que percorre Moçambique — do rumor sibilante das frondosas casuarinas, do murmúrio das urbes, do silêncio sagrado das tradições. As suas telas, trabalhadas em óleo e acrílico, são muito mais do que meras superfícies pintadas: são espaços onde a cor respira, onde a luz se demora, onde a alma encontra eco.
Em Malendze, cada tonalidade vibra com a intensidade de um poema. Os seus dégradés profundos, ora quentes como o entardecer em Inhambane, ora serenos como um amanhecer sobre o Índico, compõem uma linguagem sensorial única. A cor transforma-se em narrativa, em memória, em presença — como se a tela guardasse dentro de si o som distante de vozes, de passos, de histórias que resistem ao tempo.
O traço de Malendze é intuitivo, mas nunca desordenado. Há nele uma musicalidade íntimista, um ritmo que nos conduz para dentro das formas e das figuras, como se estivéssemos a seguir o pulsar de um coração antigo.
As figuras humanas — frequentemente centrais no seu universo — surgem como aparições luminosas: não representam apenas pessoas, mas estados de espírito, fragmentos de identidade, sombras de um povo que se reconhece na sua própria poesia visual. São corpos que carregam o peso suave da tradição, mas que se movem com a liberdade de quem habita o espaço contemporâneo universal.
Há um silêncio particular na obra de Malendze — um silêncio fértil, cheio de ressonâncias. É o silêncio das povoações ao anoitecer, das conversas murmuradas, da ancestralidade que nunca se diz por completo. Esse silêncio é o espaço onde a imaginação do observador se instala, onde cada tela se transforma num diálogo íntimo entre o artista e quem a contempla.
As obras de Malendze não procuram deslumbrar apenas pela técnica, embora esta seja notável. Procuram, outrossim, tocar, evocar, comover. Cada pincelada parece oferecer uma passagem para outro lugar — não geográfico, mas interior. E quem se detém diante de uma obra do artista encontra quase sempre uma espécie de reconhecimento: como se aquilo que se vê tivesse sido, de alguma forma, sempre nosso.
No panorama artístico moçambicano, Malendze destaca-se como um verdadeiro poeta universal, um mestre da cor e da forma. As suas telas são cânticos silenciosos, celebrações do que somos e do que desejamos ser, pequenos milagres de luz e de sensibilidade criados para perdurar.
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