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Inveja

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Título: Inveja

Ano: 2025

Dimensões: 64cm (L) x 88cm (A)

Formato: Vertical

Técnica: Óleo sobre tela

Obra única, assinada pelo Autor

Na obra “Inveja”, um óleo sobre tela integrado na série “Pecadilhos na Sociedade”, o mestre Azymir volta o seu olhar para uma das mais antigas e universais fragilidades humanas: a dificuldade em alegrar-se genuinamente com o sucesso, o talento ou os bens do próximo. Inspirando-se na poderosa linguagem plástica legada pelo saudoso mestre Malangatana, o artista constrói uma narrativa visual simultaneamente expressiva, crítica, e, acima de tudo, profundamente humana.

A composição apresenta um grupo de figuras reunidas em torno de uma personagem que segura uma viola. À primeira vista, a cena sugere um momento de convívio e apreciação musical. Contudo, à medida que o observador percorre os rostos e os gestos das personagens, percebe que a atenção colectiva ultrapassa a simples admiração pelo instrumento ou pelo seu executante. Nos olhares acumulam-se sentimentos ambíguos: fascínio, curiosidade, desejo e, sobretudo, inveja.

A viola assume-se como elemento central da narrativa. Mais do que um instrumento musical, transforma-se num símbolo de talento, realização, reconhecimento social ou prosperidade — tudo aquilo que desperta admiração, mas que, em determinadas circunstâncias, também pode gerar desconforto em quem observa. Azymir sugere, com subtil ironia, que muitas vezes não é o objecto em si que provoca a inveja, mas aquilo que ele representa.

Fiel à influência malangataneana, o artista recorre a uma composição dinâmica, povoada por figuras de grande expressividade. Os rostos parecem dialogar entre si através dos olhos, ampliados e atentos, enquanto as formas se entrelaçam num espaço quase teatral, onde cada personagem desempenha um papel na complexa dramaturgia das emoções humanas. A tensão psicológica da cena é reforçada pela gestualidade das figuras, que oscilam entre a contemplação, a expectativa e a cobiça silenciosa.

Mas “Inveja” não é uma obra de condenação moral. Pelo contrário, Azymir aborda o tema com um olhar compreensivo e profundamente humano. A inveja surge aqui como um dos pequenos desvios da condição humana — um “pecadilho” que atravessa culturas, classes sociais e épocas. O artista convida-nos a reconhecer essa fragilidade em nós próprios, lembrando que a fronteira entre a admiração inspiradora e a inveja corrosiva é, por vezes, surpreendentemente ténue.

Integrada numa série de trabalhos dedicada às pequenas contradições do comportamento humano, esta pintura confirma a capacidade de Azymir para transformar situações aparentemente banais em reflexões universais sobre a sociedade. Com humor subtil, aguda observação social e uma linguagem visual vibrante, “Inveja” revela-se não apenas como uma crítica aos sentimentos menos nobres que habitam o ser humano, mas também como um convite à introspecção e ao autoconhecimento.

Nesta obra, a viola toca uma melodia silenciosa. Não é apenas a música que atrai os olhares das personagens; é o eterno desejo humano de possuir aquilo que pertence ao outro, tema que Azymir retrata com inteligência, sensibilidade e notável maturidade artística.

O artista

Azymir, voz serena e luminosa da pintura moçambicana contemporânea, é um daqueles raros artistas plásticos cuja obra não se impõe pela extravagância, mas sim pela força tranquila de quem observa o mundo com atenção e o devolve na forma de poesia visual. Nascido na tribo Ronga em 1962 no Sul do Moçambique colonial, Azimir Chiluquete — que adoptou o nome artístico Azymir — desde cedo revelou a sua paixão pela pintura, e, enquanto discípulo do saudoso mestre Malangatana, construiu um percurso artístico sólido e profundamente singular, que, sem sombra de dúvidas, o remete para o plano dos criadores moçambicanos mais reconhecidos e respeitados de sempre.

Mestre nas técnicas de óleo e acrílico sobre tela, Azymir não procura apenas pintar: procura interpretar. O seu traço é contido mas seguro, sempre guiado por uma sensibilidade que ultrapassa a mera representação literal. Cada pintura é uma história contada em silêncio — um silêncio denso, cheio de significado, quase sempre ancorado na essência da vida da sociedade moçambicana.

Artista que vê para lá do visível, o olhar de Azymir capta nuances que muitos deixariam escapar. Interessam-lhe os pequenos rituais do quotidiano, como o trabalho na machamba, uma conversa interrompida pelo pôr do sol, o descanso depois da partilha, a cumplicidade familiar, os vínculos invisíveis que sustentam comunidades inteiras. São instantes aparentemente simples, mas que, nas suas mãos, ganham profundidade simbólica. Azymir parece recordar-nos que a verdadeira grandeza da vida reside nos gestos humildes, nos vínculos silenciosos, na dignidade que preenche os dias comuns.

Senhor de uma técnica, sensibilidade e harmonia raras, a execução pictórica de Azymir revela um domínio notável dos materiais e uma maturidade compositiva invulgar. O seu traço é disciplinado, firme, e conduz a narrativa visual com precisão, ao mesmo tempo que abre espaço para a emoção respirar. Nada nas suas obras é redundante. As figuras têm peso, presença e interioridade. O ambiente parece sempre pulsar uma energia discreta, quase espiritual. As composições são equilibradas, meditativas, construídas para que o espectador permaneça — para que observe com calma, como se estivesse perante um diálogo íntimo entre a tela e o tempo.

O mérito maior de Azymir é a sua capacidade de colocar a pessoa no centro da obra. Não idealiza, não romantiza, não dramatiza. Apenas revela — e essa revelação tem uma força particular. Nas suas telas há respeito, empatia e verdade. Há a consciência da luta, mas também da esperança. Há o peso do passado, mas também a leveza de um futuro possível. Há a memória do país e a visão de um artista que se sabe parte dele.

O percurso de Azymir — legado vivo já marcado pela maturidade — está em permanente evolução, demonstrando a sua obra a solidez de quem encontrou o seu caminho. Cada nova obra acrescenta mais uma camada a este universo estético coerente e profundamente humano, e é esta consistência — aliada à delicadeza do olhar e à honestidade do estilo — aquilo que faz de Azymir uma referência notável na pintura contemporânea.

Azymir é, acima de tudo, um artista que nos ensina a olhar, a perceber o que existe para lá da superfície, e a encontrar beleza na profundidade, significado e verdade onde, as mais das vezes, ninguém pensa procurar.

As suas obras não são meramente para ver, são, essencialmente, para sentir...

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