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Matrona Espojada

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Em Matrona Espojada, Azymir celebra a figura feminina como lugar de memória, maturidade e plenitude. A obra transcende qualquer leitura circunstancial para propor uma reflexão sobre a beleza que se afirma para além do efémero, revelando um corpo que guarda as marcas do tempo sem perder a sua força simbólica. A síntese formal e a intensidade expressiva da composição transformam a presença da matrona numa imagem de dignidade serena. Esta obra convida-nos a reconhecer que a verdadeira beleza reside na autenticidade da existência e na riqueza da experiência vivida.

Autor: Azymir

Título: Matrona Espojada

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 54,5 cm (L) x 78 cm (A)

 

 

 

 

 

 

 

  

Matrona Espojada

 

Matrona Espojada, pintura a óleo sobre tela da autoria de Azymir, constitui uma das mais profundas meditações do artista sobre a presença humana. Integrada no núcleo curatorial Entre o Sonho e a Realidade, a obra afasta-se de qualquer representação circunstancial para revelar uma figura feminina que parece existir para além do tempo, habitando um espaço onde corpo, memória e identidade convergem numa mesma realidade simbólica.

A mulher representada encontra-se reclinada, entregue ao repouso do próprio corpo. Todavia, esse repouso está longe de sugerir passividade. Há nele uma serenidade afirmativa, uma consciência de si que dispensa qualquer gesto de demonstração. Azymir transforma a quietude numa forma de presença absoluta. Nada parece interromper o diálogo silencioso entre a figura e o espaço que a envolve. O corpo deixa de ocupar simplesmente a tela; passa a organizá-la, tornando-se o verdadeiro centro gravitacional da composição.

Nesta pintura, a corporeidade assume um significado que ultrapassa a dimensão física. O corpo não é apresentado como ideal de beleza nem como objecto de contemplação. É lugar de existência. Guarda o tempo vivido, a experiência acumulada, a memória inscrita em cada forma e em cada silêncio. Tratada com notável dignidade plástica, a obra não expõe a figura ao olhar; liberta-a de tudo aquilo que é acessório, permitindo que permaneça apenas aquilo que verdadeiramente a constitui. O corpo revela-se, assim, como território de autenticidade.

Existe, nesta matrona, uma força que não nasce do movimento, mas da permanência. A sua presença recorda as formas primordiais da fertilidade e da maternidade, sem jamais se reduzir a qualquer leitura alegórica ou convencional. Azymir evita transformar a figura num símbolo fechado. Pelo contrário, conserva-lhe uma humanidade plena, permitindo que nela coexistam maturidade e vulnerabilidade, serenidade e intensidade, intimidade e universalidade.

A linguagem plástica acompanha essa construção conceptual com admirável contenção. As formas depuradas, a solidez da composição e a expressividade da matéria cromática conferem à pintura uma densidade quase escultórica. A cor deixa de descrever a superfície das coisas para revelar a energia interior que as anima. A luz não modela apenas volumes; parece fazer emergir a figura de um espaço onde realidade e memória se confundem, como se o corpo transportasse consigo a própria paisagem da experiência vivida.

À medida que o olhar permanece diante da obra, torna-se evidente que Azymir não pretende representar apenas uma mulher reclinada. Interroga a forma como habitamos o nosso próprio corpo e a maneira como nele se inscrevem o tempo, os afectos, as perdas e as permanências. A figura deixa de pertencer apenas a si mesma para se tornar espelho de uma experiência partilhada, lembrando-nos que a identidade humana se constrói menos pela aparência do que pela profundidade da existência.

Ao integrar Matrona Espojada neste percurso curatorial, compreendemos que esta pintura ocupa um lugar singular dentro do universo de Azymir. Depois da imaginação e da espera, surge a aceitação plena de si, despojada de qualquer artifício. Entre o sonho e a realidade, a matrona permanece. Não como ideal de perfeição, mas como afirmação serena de uma humanidade reconciliada consigo própria. É nessa presença silenciosa, simultaneamente terrena e intemporal, que a pintura alcança uma das suas expressões mais elevadas.

 

Autor: Azymir

Título: Matrona Espojada

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 54,5 cm (L) x 78 cm (A)

 

 

Azymir

 

 

O artista


A pintura de Azymir afirma-se pela capacidade rara de conciliar a observação da realidade com uma linguagem profundamente poética, transformando o quotidiano em metáfora e a experiência humana em narrativa visual. O seu trabalho não procura reproduzir fielmente o mundo visível; procura interpretá-lo, revelando aquilo que se encontra para além da aparência imediata das coisas.

A sua obra desenvolve-se em torno de dois grandes universos complementares. Num deles, o artista mergulha na vitalidade da cidade, dos mercados, das ruas, dos encontros e dos gestos que definem a vida colectiva. No outro, conduz-nos a um espaço de introspecção, em que a figura humana, particularmente a figura feminina, se torna veículo de memória, de sonho, de espera e de contemplação. Em ambos os casos, a realidade constitui apenas o ponto de partida para uma construção plástica dominada pela emoção, pelo ritmo compositivo e pelo poder evocativo da cor.

Azymir inscreve-se, assim, numa linguagem figurativa de forte matriz expressionista. As suas figuras afastam-se deliberadamente do rigor naturalista, assumindo proporções, movimentos e simplificações formais que intensificam a carga expressiva da composição. A deformação nunca é gratuita; é um recurso plástico destinado a comunicar estados de espírito, atmosferas e relações humanas que dificilmente poderiam ser transmitidos através de uma representação estritamente objectiva.

Nas obras de temática urbana, essa linguagem aproxima-se de um expressionismo narrativo, em que a cidade é apresentada não apenas como espaço físico, mas como palco das relações humanas, das tensões sociais, da convivência e da esperança. A composição organiza-se segundo ritmos visuais que conferem dinamismo às cenas, enquanto a cor participa activamente na construção da emoção, transcendendo a mera descrição do real.

Por sua vez, nas obras de carácter mais intimista, Azymir aproxima-se de um figurativismo simbolista de afinidades pós-impressionistas, em que o significado ultrapassa a narrativa imediata. Figuras como as de Sonhando Acordada, Esperando o Amor, Dança das Ninfas ou Matrona Espojada deixam de representar indivíduos concretos para assumirem uma dimensão quase arquetípica. A mulher surge como símbolo da interioridade, da memória, da fertilidade, da serenidade e da condição humana, enquanto o espaço pictórico se transforma num território psicológico, onde a cor, a forma e a composição evocam estados emocionais mais do que lugares ou acontecimentos.

É possível reconhecer, neste núcleo da sua produção, afinidades com alguns princípios do Pós-Impressionismo, particularmente na autonomia expressiva da cor, na simplificação das formas e na construção de atmosferas simbólicas que recordam certas soluções exploradas por Paul Gauguin. Contudo, essas aproximações pertencem ao domínio da linguagem artística e não da influência directa. Azymir desenvolve um discurso profundamente enraizado na experiência cultural moçambicana, construído a partir de uma visão interior da sua própria realidade e não da observação de um universo exterior ou exótico.

Esta capacidade de dialogar com grandes tradições da pintura moderna, preservando simultaneamente uma identidade estética própria, confere à sua obra uma dimensão universal. Sem abdicar das referências culturais que a alimentam, a pintura de Azymir aborda temas que atravessam fronteiras geográficas: o amor, a esperança, a maternidade, a memória, a cidade, o trabalho, o sonho e a permanente procura de sentido na experiência humana.

Na BATIKart, a obra de Azymir integra-se plenamente na missão de apresentar artistas cuja linguagem ultrapassa qualquer enquadramento geográfico ou etnográfico. A sua pintura demonstra que a arte contemporânea produzida em Moçambique participa, com plena legitimidade, nas grandes correntes do pensamento visual contemporâneo, afirmando uma voz singular que transforma a realidade em emoção e a emoção em linguagem pictórica.

 

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