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Sonhando Acordada

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Em Sonhando Acordada, Azymir explora o espaço subtil onde a realidade se deixa atravessar pela imaginação. A figura representada parece suspensa entre o mundo visível e a intimidade do pensamento, sugerindo que sonhar constitui uma forma de compreender aquilo que ainda não ganhou forma.

A linguagem plástica, depurada e expressiva, afasta-se da descrição para privilegiar a evocação, transformando o silêncio numa presença activa. Esta obra recorda-nos que a capacidade de imaginar não representa uma fuga ao real, mas uma das mais profundas manifestações da liberdade humana.

Autor: Azymir

Título: Sonhando acordada

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 56 cm (L) x 78 cm (A)

 

 

 

 

 

 

 Sonhando Acordada

 

 

 

Sonhando Acordada

 

Sonhando Acordada, pintura a óleo sobre tela da autoria de Azymir, convida o observador a penetrar num território onde a realidade deixa de ser apenas aquilo que os olhos alcançam. Integrada no núcleo curatorial Entre o Sonho e a Realidade, a obra propõe uma reflexão sobre a vida interior, esse espaço silencioso onde memória, desejo, imaginação e esperança se entrelaçam antes mesmo de encontrarem expressão no mundo visível.

Ao centro da composição ergue-se uma jovem mulher, inteiramente recolhida na intimidade do seu pensamento. O seu corpo permanece presente, firme e sereno, enquanto o olhar parece afastar-se para um horizonte inacessível ao espectador. Azymir constrói, assim, uma subtil dissociação entre presença física e viagem interior, sugerindo que a verdadeira acção da pintura acontece para além do gesto, num tempo suspenso em que a consciência vagueia livremente.

O nu é tratado com uma notável contenção poética. Longe de qualquer intenção descritiva ou provocatória, afirma-se como linguagem de autenticidade e de vulnerabilidade. Despojada de artifícios, a figura revela-se na sua condição mais essencial, permitindo que o corpo deixe de ser objecto de contemplação para se transformar em veículo de uma experiência profundamente humana. A nudez não expõe; revela. Não procura seduzir; convida à escuta silenciosa da interioridade.

A linguagem plástica de Azymir acompanha essa delicadeza conceptual. As formas depuradas, a harmonia da composição e a intensidade expressiva da matéria cromática constroem uma atmosfera onde o tempo parece desacelerar. A luz envolve a figura sem a isolar, enquanto o fundo, longe de funcionar como simples enquadramento, participa activamente da construção emocional da obra. Tudo concorre para uma sensação de quietude, como se a pintura respirasse ao ritmo do próprio pensamento.

Existe, nesta obra, uma subtil celebração da imaginação como faculdade essencial da existência. Sonhar não surge como evasão da realidade, mas como a sua expansão mais íntima. É no espaço invisível do sonho acordado que o ser humano ensaia futuros possíveis, revisita memórias, enfrenta ausências e constrói significados que a experiência quotidiana, por si só, dificilmente alcançaria. Azymir reconhece essa dimensão invisível como parte integrante da condição humana e concede-lhe uma dignidade raramente representada com semelhante delicadeza.

Ao integrar Sonhando Acordada no percurso curatorial da BATIKart, torna-se evidente que esta pintura ultrapassa a representação de uma figura feminina em contemplação. Trata-se de uma meditação sobre o poder silencioso da vida interior e sobre a capacidade de cada pessoa habitar, simultaneamente, dois mundos: aquele em que o corpo permanece e aquele onde o pensamento se torna infinitamente livre. É nesse intervalo delicado entre o visível e o imaginado que Azymir encontra uma das expressões mais profundas da pintura e da própria experiência humana.

  

Autor: Azymir

Título: Sonhando Acordada

Ano: 2025

Técnica: Óleo sobre tela

Dimensões: 56 cm (L) x 78 cm (A)

 

 

Azymir

 

 

O artista


A pintura de Azymir afirma-se pela capacidade rara de conciliar a observação da realidade com uma linguagem profundamente poética, transformando o quotidiano em metáfora e a experiência humana em narrativa visual. O seu trabalho não procura reproduzir fielmente o mundo visível; procura interpretá-lo, revelando aquilo que se encontra para além da aparência imediata das coisas.

A sua obra desenvolve-se em torno de dois grandes universos complementares. Num deles, o artista mergulha na vitalidade da cidade, dos mercados, das ruas, dos encontros e dos gestos que definem a vida colectiva. No outro, conduz-nos a um espaço de introspecção, em que a figura humana, particularmente a figura feminina, se torna veículo de memória, de sonho, de espera e de contemplação. Em ambos os casos, a realidade constitui apenas o ponto de partida para uma construção plástica dominada pela emoção, pelo ritmo compositivo e pelo poder evocativo da cor.

Azymir inscreve-se, assim, numa linguagem figurativa de forte matriz expressionista. As suas figuras afastam-se deliberadamente do rigor naturalista, assumindo proporções, movimentos e simplificações formais que intensificam a carga expressiva da composição. A deformação nunca é gratuita; é um recurso plástico destinado a comunicar estados de espírito, atmosferas e relações humanas que dificilmente poderiam ser transmitidos através de uma representação estritamente objectiva.

Nas obras de temática urbana, essa linguagem aproxima-se de um expressionismo narrativo, em que a cidade é apresentada não apenas como espaço físico, mas como palco das relações humanas, das tensões sociais, da convivência e da esperança. A composição organiza-se segundo ritmos visuais que conferem dinamismo às cenas, enquanto a cor participa activamente na construção da emoção, transcendendo a mera descrição do real.

Por sua vez, nas obras de carácter mais intimista, Azymir aproxima-se de um figurativismo simbolista de afinidades pós-impressionistas, em que o significado ultrapassa a narrativa imediata. Figuras como as de Sonhando Acordada, Esperando o Amor, Dança das Ninfas ou Matrona Espojada deixam de representar indivíduos concretos para assumirem uma dimensão quase arquetípica. A mulher surge como símbolo da interioridade, da memória, da fertilidade, da serenidade e da condição humana, enquanto o espaço pictórico se transforma num território psicológico, onde a cor, a forma e a composição evocam estados emocionais mais do que lugares ou acontecimentos.

É possível reconhecer, neste núcleo da sua produção, afinidades com alguns princípios do Pós-Impressionismo, particularmente na autonomia expressiva da cor, na simplificação das formas e na construção de atmosferas simbólicas que recordam certas soluções exploradas por Paul Gauguin. Contudo, essas aproximações pertencem ao domínio da linguagem artística e não da influência directa. Azymir desenvolve um discurso profundamente enraizado na experiência cultural moçambicana, construído a partir de uma visão interior da sua própria realidade e não da observação de um universo exterior ou exótico.

Esta capacidade de dialogar com grandes tradições da pintura moderna, preservando simultaneamente uma identidade estética própria, confere à sua obra uma dimensão universal. Sem abdicar das referências culturais que a alimentam, a pintura de Azymir aborda temas que atravessam fronteiras geográficas: o amor, a esperança, a maternidade, a memória, a cidade, o trabalho, o sonho e a permanente procura de sentido na experiência humana.

Na BATIKart, a obra de Azymir integra-se plenamente na missão de apresentar artistas cuja linguagem ultrapassa qualquer enquadramento geográfico ou etnográfico. A sua pintura demonstra que a arte contemporânea produzida em Moçambique participa, com plena legitimidade, nas grandes correntes do pensamento visual contemporâneo, afirmando uma voz singular que transforma a realidade em emoção e a emoção em linguagem pictórica.

 

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