Txunados para txilar
Título: Txunados para txilar
Ano: 2025
Dimensões: 87cm (L) x 65cm (A)
Formato: Horizontal
Técnica: Óleo sobre tela
“Txunados para txilar”, óleo sobre tela da autoria de Malendze, é uma obra vibrante e carregada de uma ironia subtil, em que, de forma abstracta, o artista mergulha no universo urbano contemporâneo moçambicano para retratar uma geração que se prepara — não para trabalhar, não para reivindicar, mas para ... txilar!
No léxico popular, txunar significa aperaltar-se, produzir-se, vestir-se com esmero; txilar remete para sair, curtir, divertir-se, conviver, exibir presença nos espaços sociais. O título, pleno de oralidade e identidade cultural, encerra desde logo a essência da obra: personagens cuidadosamente compostas, alinhadas, confiantes, prontas para desfilar no espaço público com estilo e atitude.
Na tela, as figuras surgem estilizadas, com roupas marcantes, poses estudadas e uma expressividade quase teatral. Os corpos inclinam-se com segurança, os olhares projectam-se para fora da composição como se procurassem reconhecimento. Há uma celebração evidente da estética, da moda improvisada, da criatividade juvenil que transforma cada saída num acontecimento.
Contudo, fiel à sua veia crítica, Malendze não se limita à celebração. Sob a superfície colorida e dinâmica, pressente-se uma reflexão mais profunda sobre identidade, pertença e necessidade de afirmação. A preparação meticulosa (o acto de se "txunar") para “txilar” (curtir a night) pode ser lida como ritual de afirmação social num contexto onde as oportunidades nem sempre abundam. Vestir-se bem, apresentar-se com aprumo, pode assumir-se como um gesto de resistência simbólica, mas também pode afigurar-se como manifestação ou gesto de frivolidade noctívaga.
A paleta cromática é ousada, contrastante, quase sonora. As cores parecem dialogar entre si como música que antecede a noite. O fundo, menos definido, reforça a ideia de movimento e efemeridade — como se aquele instante antecedesse algo maior: a festa, o encontro, a noite que promete possibilidades.
“Txunados para txilar” é, assim, simultaneamente retrato e comentário. Celebra a energia urbana, a criatividade espontânea e o orgulho estético da juventude moçambicana, mas também convida à reflexão sobre o papel da aparência, da pertença, da construção da imagem e da frivolidade no tecido social contemporâneo.
Através desta obra, Malendze reafirma a sua capacidade de captar o espírito do tempo — transformando expressões populares e cenas quotidianas em arte com identidade própria, profundamente enraizada na vivência urbana do Moçambique actual.

O artista
O artista plástico moçambicano Alberto Malendze, conhecido no meio das artes plásticas simplesmente como Malendze, é um daqueles criadores raros cuja obra parece nascer directamente do sopro invisível que percorre Moçambique — do rumor sibilante das frondosas casuarinas, do murmúrio das urbes, do silêncio sagrado das tradições. As suas telas, trabalhadas em óleo e acrílico, são muito mais do que meras superfícies pintadas: são espaços onde a cor respira, onde a luz se demora, onde a alma encontra eco.
Em Malendze, cada tonalidade vibra com a intensidade de um poema. Os seus dégradés profundos, ora quentes como o entardecer em Inhambane, ora serenos como um amanhecer sobre o Índico, compõem uma linguagem sensorial única. A cor transforma-se em narrativa, em memória, em presença — como se a tela guardasse dentro de si o som distante de vozes, de passos, de histórias que resistem ao tempo.
O traço de Malendze é intuitivo, mas nunca desordenado. Há nele uma musicalidade íntimista, um ritmo que nos conduz para dentro das formas e das figuras, como se estivéssemos a seguir o pulsar de um coração antigo, adivinhando-se, em algumas das suas obras, a incontornável influência do grande Malangatana, excelso Mestre que influenciou e influencia gerações.
As figuras humanas — frequentemente centrais no seu universo — surgem como aparições luminosas: não representam apenas pessoas, mas estados de espírito, fragmentos de identidade, sombras de um povo que se reconhece na sua própria poesia visual. São corpos que carregam o peso suave da tradição, mas que se movem com a liberdade de quem habita o espaço contemporâneo universal.
Há um silêncio particular na obra de Malendze — um silêncio fértil, cheio de ressonâncias. É o silêncio das povoações ao anoitecer, das conversas murmuradas, da ancestralidade que nunca se diz por completo. Esse silêncio é o espaço onde a imaginação do observador se instala, onde cada tela se transforma num diálogo íntimo entre o artista e quem a contempla.
As obras de Malendze não procuram deslumbrar apenas pela técnica, embora esta seja notável. Procuram, outrossim, tocar, evocar, comover. Cada pincelada parece oferecer uma passagem para outro lugar — não geográfico, mas interior. E quem se detém diante de uma obra do artista encontra quase sempre uma espécie de reconhecimento: como se aquilo que se vê tivesse sido, de alguma forma, sempre nosso.
No panorama artístico moçambicano, Malendze destaca-se como um verdadeiro poeta universal, um mestre da cor e da forma. As suas telas são cânticos silenciosos, celebrações do que somos e do que desejamos ser, pequenos milagres de luz e de sensibilidade criados para perdurar.
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