Montra de vaidades
Título: Montra de vaidades
Ano: 2025
Dimensões: 86cm (L) x 64cm (A)
Formato: Horizontal
Técnica: Óleo sobre tela
“Montra de vaidades”, óleo sobre tela do artista plástico moçambicano Malendze, é uma obra de forte carga simbólica e crítica social, em que o pintor mergulha nas dinâmicas da aparência e da ostentação que, de forma cada vez mais evidente, atravessam a sociedade contemporânea.
O título é, desde logo, revelador. Uma montra é o espaço onde se expõe aquilo que se quer vender — cuidadosamente iluminado, estrategicamente organizado para seduzir o olhar. Ao associar essa ideia à vaidade, Malendze constrói uma metáfora incisiva: vivemos tempos em que muitos transformam a própria existência numa vitrina permanente, exibindo sucessos, bens materiais, estatuto e até emoções como se fossem produtos destinados à validação pública.
Na tela, as figuras surgem estilizadas, por vezes exageradas nos gestos e nas expressões, como se encenassem versões idealizadas de si próprias. Os rostos estilizados, simultaneamente altivos e tensos, revelam a dualidade entre a segurança aparente e a fragilidade interior. Há brilho, há pose, há teatralidade — mas também uma inquietação latente, subtilmente sugerida na rigidez dos corpos e na intensidade dos olhares.
A composição é dinâmica, quase cénica, evocando um palco onde cada personagem desempenha o seu papel social. A paleta cromática, vibrante e contrastada, reforça a ideia de espectáculo: cores que atraem, que seduzem, que impõem presença. Contudo, sob essa camada luminosa, pressente-se uma densidade crítica, típica da abordagem reflexiva de Malendze.
“Montra de vaidades” não é apenas um retrato de indivíduos; é um comentário sobre uma cultura de exibição que se alimenta do olhar do outro. A obra convida o observador a questionar até que ponto a identidade se confunde com a imagem projectada, e até que ponto a necessidade de reconhecimento conduz a uma encenação permanente da própria vida.
Com esta pintura, Malendze reafirma-se como um intérprete atento das pulsões sociais do nosso tempo. Através de uma linguagem plástica expressiva e carregada de significado, transforma a tela num espelho crítico da sociedade — uma sociedade onde a vaidade, tantas vezes, ocupa a montra principal.

O artista
O artista plástico moçambicano Alberto Malendze, conhecido no meio das artes plásticas simplesmente como Malendze, é um daqueles criadores raros cuja obra parece nascer directamente do sopro invisível que percorre Moçambique — do rumor sibilante das frondosas casuarinas, do murmúrio das urbes, do silêncio sagrado das tradições. As suas telas, trabalhadas em óleo e acrílico, são muito mais do que meras superfícies pintadas: são espaços onde a cor respira, onde a luz se demora, onde a alma encontra eco.
Em Malendze, cada tonalidade vibra com a intensidade de um poema. Os seus dégradés profundos, ora quentes como o entardecer em Inhambane, ora serenos como um amanhecer sobre o Índico, compõem uma linguagem sensorial única. A cor transforma-se em narrativa, em memória, em presença — como se a tela guardasse dentro de si o som distante de vozes, de passos, de histórias que resistem ao tempo.
O traço de Malendze é intuitivo, mas nunca desordenado. Há nele uma musicalidade íntimista, um ritmo que nos conduz para dentro das formas e das figuras, como se estivéssemos a seguir o pulsar de um coração antigo.
As figuras humanas — frequentemente centrais no seu universo — surgem como aparições luminosas: não representam apenas pessoas, mas estados de espírito, fragmentos de identidade, sombras de um povo que se reconhece na sua própria poesia visual. São corpos que carregam o peso suave da tradição, mas que se movem com a liberdade de quem habita o espaço contemporâneo universal.
Há um silêncio particular na obra de Malendze — um silêncio fértil, cheio de ressonâncias. É o silêncio das povoações ao anoitecer, das conversas murmuradas, da ancestralidade que nunca se diz por completo. Esse silêncio é o espaço onde a imaginação do observador se instala, onde cada tela se transforma num diálogo íntimo entre o artista e quem a contempla.
As obras de Malendze não procuram deslumbrar apenas pela técnica, embora esta seja notável. Procuram, outrossim, tocar, evocar, comover. Cada pincelada parece oferecer uma passagem para outro lugar — não geográfico, mas interior. E quem se detém diante de uma obra do artista encontra quase sempre uma espécie de reconhecimento: como se aquilo que se vê tivesse sido, de alguma forma, sempre nosso.
No panorama artístico moçambicano, Malendze destaca-se como um verdadeiro poeta universal, um mestre da cor e da forma. As suas telas são cânticos silenciosos, celebrações do que somos e do que desejamos ser, pequenos milagres de luz e de sensibilidade criados para perdurar.
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