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Na paragem do chapa

Título: Na paragem do chapa

Ano: 2025

Dimensões: 86cm (L) x 64cm (A)

Formato: Horizontal

Técnica: Óleo sobre tela

 

 

Na paragem do chapa”, óleo sobre tela do artista plástico moçambicano Malendze, é uma obra de pungente realismo social, onde o pintor fixa um dos cenários mais emblemáticos do quotidiano urbano em Moçambique: a espera pelo transporte público.

O chapa — designação popular dos minibus privados de transporte semi-colectivo, geralmente com lotação oficial de nove lugares — constitui um dos principais meios de transporte nas urbes moçambicanas, sobretudo em Maputo e na sua área metropolitana. Contudo, a realidade vivida pelos passageiros está longe do conforto sugerido pela lotação formal. Na prática, estas viaturas chegam frequentemente a transportar o dobro — ou mais — do número permitido, comprimindo corpos e expectativas no mesmo espaço exíguo.

É precisamente esse instante tenso, na paragem, que Malendze escolhe retratar. A composição apresenta um conjunto de figuras comprimidas, tensas, olhando para a frente para a frente, prontas para o avanço. Os rostos revelam ansiedade, cansaço e determinação. Há urgência nos gestos, nervosismo nos olhares. O momento em que o chapa abranda desencadeia uma espécie de coreografia caótica: homens e mulheres “lutam” — termo popular que se refere ao esforço feito para conseguir entrar — numa tentativa quase instintiva de garantir um lugar. Não se trata de agressividade gratuita, mas de sobrevivência urbana; quem hesita, fica para trás.

A pincelada vigorosa e a densidade cromática intensificam a sensação de aperto físico e psicológico. As figuras parecem disputar não apenas espaço, mas tempo, dignidade e oportunidade. O ambiente é pesado, quase sufocante, sugerindo o calor, o ruído e a impaciência que caracterizam essas paragens.

Na paragem do chapa” transcende o episódio concreto e transforma-se numa crítica social mais ampla. A dificuldade em aceder a um transporte digno reflecte problemas estruturais: insuficiência de oferta, precaridade, desigualdade. A obra denuncia, sem panfleto, a normalização do desconforto e da sobrelotação como parte integrante de uma rotina diária da qual não se consegue escapar.

Malendze revela, nesta pintura, a sua capacidade de elevar o quotidiano a matéria artística de reflexão. Ao fixar na tela o instante imediatamente antes da “luta” pela entrada no chapa, o artista convida-nos a olhar para aquilo que muitos já encaram como inevitável.

E nesse gesto reside a força da arte: tornar visível o que a pressa do dia-a-dia tende a banalizar.

 O artista

O artista plástico moçambicano Alberto Malendze, conhecido no meio das artes plásticas simplesmente como Malendze, é um daqueles criadores raros cuja obra parece nascer directamente do sopro invisível que percorre Moçambique — do rumor sibilante das frondosas casuarinas, do murmúrio das urbes, do silêncio sagrado das tradições. As suas telas, trabalhadas em óleo e acrílico, são muito mais do que meras superfícies pintadas: são espaços onde a cor respira, onde a luz se demora, onde a alma encontra eco.

Em Malendze, cada tonalidade vibra com a intensidade de um poema. Os seus dégradés profundos, ora quentes como o entardecer em Inhambane, ora serenos como um amanhecer sobre o Índico, compõem uma linguagem sensorial única. A cor transforma-se em narrativa, em memória, em presença — como se a tela guardasse dentro de si o som distante de vozes, de passos, de histórias que resistem ao tempo.

O traço de Malendze é intuitivo, mas nunca desordenado. Há nele uma musicalidade íntimista, um ritmo que nos conduz para dentro das formas e das figuras, como se estivéssemos a seguir o pulsar de um coração antigo.

As figuras humanas — frequentemente centrais no seu universo — surgem como aparições luminosas: não representam apenas pessoas, mas estados de espírito, fragmentos de identidade, sombras de um povo que se reconhece na sua própria poesia visual. São corpos que carregam o peso suave da tradição, mas que se movem com a liberdade de quem habita o espaço contemporâneo universal.

Há um silêncio particular na obra de Malendze — um silêncio fértil, cheio de ressonâncias. É o silêncio das povoações ao anoitecer, das conversas murmuradas, da ancestralidade que nunca se diz por completo. Esse silêncio é o espaço onde a imaginação do observador se instala, onde cada tela se transforma num diálogo íntimo entre o artista e quem a contempla.

As obras de Malendze não procuram deslumbrar apenas pela técnica, embora esta seja notável. Procuram, outrossim, tocar, evocar, comover. Cada pincelada parece oferecer uma passagem para outro lugar — não geográfico, mas interior. E quem se detém diante de uma obra do artista encontra quase sempre uma espécie de reconhecimento: como se aquilo que se vê tivesse sido, de alguma forma, sempre nosso.

No panorama artístico moçambicano, Malendze destaca-se como um verdadeiro poeta universal, um mestre da cor e da forma. As suas telas são cânticos silenciosos, celebrações do que somos e do que desejamos ser, pequenos milagres de luz e de sensibilidade criados para perdurar.

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